Jogo da Memória: como jogar, como adaptar a cada idade e de onde vem
O jogo da memória parece simples: cartas viradas para baixo, duas viradas por vez, e quem achar mais pares vence. A parte que costuma dar errado é o tamanho da partida. Uma mesa com 20 pares diante de uma criança de 3 anos tende a acabar em cartas espalhadas pelo chão.
Aqui estão as regras, ajustes para cada idade, variações para fazer em casa e o que a pesquisa diz sobre uma ideia muito repetida, a de que adulto sempre perde para criança. No fim, as duas histórias por trás do jogo: a do nome britânico e a da caixa alemã de 1959.
Como jogar
A descrição do Pagat, site dedicado a regras de jogos de cartas, é esta: duas ou mais pessoas, cartas com o verso indistinguível e frentes que formem pares. As cartas são embaralhadas e espalhadas viradas para baixo, sem se sobrepor. Na sua vez, o jogador vira duas cartas. Se formam um par, ele fica com elas e joga de novo. Se não formam, as duas são viradas de volta, nos mesmos lugares, e a vez passa ao próximo. O jogo termina quando todas as cartas foram recolhidas, e vence quem tiver mais pares.
Os jogos de caixa seguem a mesma lógica. A página do Jogo da Memória Sombras, da Xalingo, descreve assim: a cada rodada a criança revela duas peças, procura o par formado por um animal e a sua sombra, e quem encontra o par ganha um novo turno.
Como adaptar o jogo a cada idade

Não existe regra oficial de jogo da memória por idade. Os fabricantes indicam só a idade mínima (3 ou 4 anos em dois dos jogos citados no fim do texto), e o guia de atividades do Centro de Desenvolvimento da Criança de Harvard, na parte sobre crianças de 5 a 7 anos, recomenda jogos exigentes, mas não difíceis demais, para cada criança. Quantas peças escolher em cada faixa está no nosso guia O que o jogo da memória desenvolve?. Aqui o foco é a regra da partida, e o que segue é sugestão do portal:
- Por volta de 3 anos: poucos pares na mesa e um adulto jogando junto, dizendo em voz alta o que cada carta mostra (“um gato, e aqui um peixe”). Vale lembrar a criança de onde estava a figura que ela já viu.
- 4 a 5 anos: as regras completas (duas cartas por vez, par dá nova jogada), com o adulto ainda ajudando a lembrar de quem é a vez e a devolver as cartas ao mesmo lugar.
- 6 anos em diante: a criança cuida das regras sozinha. O guia de Harvard sugere diminuir o papel do adulto assim que possível: o desafio é maior quando a criança lembra e faz valer as regras sozinha. Para dificultar, misture dois jogos ou use figuras parecidas entre si.
Se a criança perde o interesse, a partida provavelmente está grande ou longa demais, e tirar pares da mesa resolve na hora. Se ela acerta tudo sem esforço, acrescente pares.
Variações para jogar em casa
Estas variações são ideias de brincadeira, sem regra oficial.
- Memória de sons: no lugar de figuras, use potes iguais com grãos diferentes dentro (arroz, feijão, milho). A criança sacode dois potes por vez e procura o mesmo som.
- Memória de quintal: espalhe pares de objetos pelo quintal ou pela varanda (duas folhas, duas tampinhas, dois gravetos), cada um escondido sob um copo ou balde igual.
- Memória com baralho: separe alguns valores, por exemplo do ás ao 5, com os quatro naipes. O Pagat considera melhor ter quatro cartas de cada tipo do que duas, porque a primeira carta de um tipo novo passa a ter três parceiros possíveis, e não um. Combine antes se vale só o número ou também a cor: o Pagat ignora os naipes, enquanto a Wikipédia em inglês registra como padrão o par de mesmo valor e mesma cor.
- Versão cooperativa: todos jogam juntos contra o tempo. Cada par achado vai para um monte comum, e o objetivo é recolher todos antes de uma música acabar. Ninguém perde, o que ajuda quem ainda sofre com a derrota.
O que a criança treina
O guia de Harvard define memória de trabalho como a capacidade de manter uma informação na mente e usá-la, e diz que jogos em que é preciso lembrar a posição de cartas exercitam bem essa habilidade. O exemplo mais simples que ele cita é o Concentration, o jogo da memória. A lista completa, habilidade por habilidade, está no nosso guia sobre o que o jogo desenvolve. O que nenhuma fonte que abrimos afirma é que jogar memória aumente a inteligência ou melhore as notas.
Adulto sempre perde para criança?
É comum ouvir que criança ganha de adulto no jogo da memória. Existe pesquisa, e ela não confirma o “sempre”. Em 1996, a pesquisadora R. Schumann-Hengsteler, da Universidade Católica de Eichstätt, na Alemanha, publicou no Journal of Genetic Psychology um estudo com 80 crianças de 5 a 10 anos e 32 adultos. Segundo o resumo do artigo, os adultos tiveram o melhor desempenho geral. As crianças de 5 anos foram as que menos erraram posições, mas, no conjunto, os resultados contrariam a fama das crianças pequenas como especialistas em memória visual e espacial.
Um trabalho mais recente, de Krøjgaard e colegas, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca (Consciousness and Cognition, 2019), comparou 34 crianças de 6 anos, 48 de 8 e 38 adultos numa versão do jogo no computador. As de 6 anos foram superadas pelas mais velhas e pelos adultos; as de 8 jogaram tão bem quanto os adultos. Os autores sugerem que os adultos usam estratégias que funcionam na vida real, mas que podem ser menos adequadas no jogo da memória. Ou seja, o adulto não perde sempre, mas uma criança de 8 anos já pode empatar com ele.
De onde vem o jogo da memória
Há duas histórias que costumam se misturar. A primeira é a do jogo de cartas. Segundo o Pagat, ele é chamado de Concentration ou Memory, no Japão de Shinkei-suijaku e na Grã-Bretanha de Pelmanism. O nome britânico vem do Instituto Pelman, de Londres, que ensinava por correspondência um sistema de treino de memória. Quem criou o instituto e o sistema varia conforme a fonte: o Pagat diz que o instituto foi fundado por Christopher Louis Pelman em 1899, e a Wikipédia em inglês atribui o sistema a William Joseph Ennever, na década de 1890, dizendo apenas que o instituto leva o nome de Pelman. Quem inventou o jogo de cartas, e quando, nenhuma das fontes que abrimos registra.
A segunda é a do jogo de caixa. A Ravensburger, editora alemã fundada em 1883 com o nome de Otto Maier Verlag, informa em seu site que o jogo de memória do diplomata suíço William H. Hurter chegou ao mercado em 1959. O Memozor, site de colecionadores, conta mais: a ideia teria vindo do avô, Heinrich Hurter, que colava recortes de revistas e catálogos em cartões para os netos, e William teria levado a proposta à Otto Maier Verlag em dezembro de 1957. Como esse relato vem de uma só fonte e a página da Ravensburger não cita o avô, vale tratá-lo como relato, não como fato fechado.
Onde encontrar
Três opções da Casa do Brinquedo, descritas só com o que consta nas páginas da loja: o Jogo da Memória Sombras, da Xalingo, tem 24 peças com pares de animais e suas sombras, indicado a partir de 3 anos. O Jogo da Memória Esportes, da Brincadeira de Criança, tem 12 pares (24 peças) de madeira ilustradas com esportes, indicado a partir de 4 anos. O Jogo da Memória Animais Brasileiros em Extinção, da Fábrika dos Sonhos, tem 10 espécies em 20 peças de madeira de reflorestamento, com caixa organizadora, e a página não informa idade. A loja é da mesma empresa que mantém o Amo Brinquedos, e os critérios de indicação estão em Como Avaliamos.
Veja também
- O que o jogo da memória desenvolve? Benefícios e como escolher por idade
- Como lidar com a frustração da criança quando ela perde
- Jogos Cooperativos para Crianças: ganhar juntos, não um do outro
- Jogos de Tabuleiro para Crianças: por onde começar
- Brincadeiras de Rua: guia de 12 clássicos e o que cada um desenvolve
