Cama de Gato: como fazer o primeiro desenho com barbante e o que se sabe da origem
Um pedaço de barbante com as pontas amarradas, duas pessoas e nenhum outro material: é tudo de que a cama de gato precisa. Uma criança monta um desenho nas mãos, a outra tira o fio dos dedos dela sem desmanchar os laços e forma um desenho novo. A vez vai e volta até alguém errar ou o desenho não ter mais para onde ir.
A brincadeira tem registros em muitos países, e boa parte da história dela é mal documentada. Este texto descreve os dois primeiros desenhos com base num estudo de 1906 e separa o que as pesquisas registram do que a internet repete sem fonte.
O que você precisa
- Um pedaço de barbante com as pontas amarradas. Um material escolar de Taubaté (SP) sugere cortar cerca de 1,50 m antes de dar o nó. Sugestão do portal: barbante liso, nó firme e pedaço mais curto para mãos pequenas.
- Duas pessoas para o jogo de passar o desenho.
Como fazer: o primeiro desenho
Esse primeiro desenho é o que o livro de 1906 chama, em inglês, de Cradle (berço). A autora, Caroline Jayne, descreve assim a montagem, que aqui está resumida em passos:
- Quem começa passa os quatro dedos de cada mão por dentro do laço, sem torcer o barbante, com os polegares de fora, e afasta as mãos. Ficam dois fios entre as mãos: o de perto, mais próximo do corpo, e o de longe.
- Com o polegar e o indicador da mão direita, pega o fio de perto junto da mão esquerda e o leva para longe do corpo, por cima da palma esquerda. Depois o traz de volta por cima do dorso da mão esquerda e o solta entre o polegar e o indicador esquerdos.
- Faz o mesmo na mão direita, agora usando a mão esquerda. Confira: dois fios no dorso de cada mão e um fio atravessando cada palma.
- Aproxima as mãos, passa o dedo médio direito por baixo do fio que atravessa a palma esquerda e afasta as mãos. Esse fio vem junto, apoiado no dorso do dedo.
- Aproxima as mãos de novo e passa o dedo médio esquerdo por baixo do fio que atravessa a palma direita, no trecho entre os dois fios que agora saem do dedo médio direito. Afasta as mãos.
Pronto o desenho, cada dedo médio tem uma alça e cada mão continua com dois fios no dorso. Há um fio reto perto do corpo, um fio reto longe e, entre eles, os fios cruzados das alças, formando dois xis: o de perto e o de longe.
Passando o desenho para a outra pessoa

A segunda pessoa fica de frente para quem segura o desenho. Aqui, perto e longe continuam valendo do ponto de vista de quem segura.
- Com o polegar e o indicador da mão esquerda, a segunda pessoa entra por baixo dos dois fios do xis de perto, movendo os dedos na direção do próprio corpo, e pinça os fios no cruzamento.
- Com o polegar e o indicador da mão direita, faz o mesmo no xis de longe, movendo os dedos na direção de quem segura.
- Sem soltar, afasta as mãos: a esquerda vai na direção de quem segura, a direita volta para o próprio corpo. Cada mão passa do fio reto que está do seu lado.
- Ainda pinçando, contorna esse fio reto por baixo e sobe pelo centro do desenho.
- Afasta as mãos e separa bem cada polegar do indicador. O barbante sai dos dedos de quem montou.
O resultado é o segundo desenho, que o livro chama de Soldier’s Bed (cama do soldado): uma alça em cada polegar, uma em cada indicador, quatro alças se cruzando no meio e um fio reto de cada lado.
O livro lista oito desenhos nessa sequência clássica, todos com nomes em inglês: Cradle, Soldier’s Bed, Candles, Manger, Diamonds, Cat’s Eye, Fish in a Dish e Clock. Os nomes variam de país para país, e o próprio livro diz que, na Inglaterra, não está claro a quais desenhos alguns apelidos se referem. Não encontramos nomes em português com fonte, então fica a sugestão de inventar os seus.
Para brincar sem dupla
Segundo o mesmo estudo, as figuras de barbante registradas entre povos da Oceania e das Américas costumam ser feitas por uma pessoa só. Haddon, que viu esses jogos no estreito de Torres (entre a Austrália e a Nova Guiné) em 1888, conta que os desenhos de lá são bem mais complicados e que, às vezes, até dentes e dedos dos pés entram na jogada. Já o tipo asiático e europeu, o de passar, exige duas pessoas.
De onde vem: o que se sabe
Ninguém sabe onde nem quando a brincadeira começou. O que existe são registros esparsos:
- Jayne e o antropólogo Alfred Haddon escreveram em 1906 que a cama de gato de passar provavelmente teve origem na Ásia e chegou à Europa. O livro não achou registro de quando ela entrou na Inglaterra e diz que ninguém explicou de modo satisfatório o nome inglês cat’s cradle.
- A Wikipédia em inglês aponta como primeira menção conhecida do nome em inglês um livro de Abraham Tucker, de 1768, e diz que a origem do nome é discutida. Não conseguimos conferir essa data numa fonte primária.
- A mesma enciclopédia diz que a descrição escrita mais antiga de uma figura de barbante é de um médico grego, Heraclas, no século I, e que se trata de uma tipoia para maxilar quebrado. Também é informação de segunda mão.
- Os antropólogos começaram a descrever as figuras de barbante em povos de várias regiões no fim do século XIX e consideram que elas parecem ter surgido de forma independente em muitas sociedades.
Um material de Jundiaí (SP) diz que há estudos situando a brincadeira na China por volta de 1765, mas cita apenas um vídeo numa rede social, e não encontramos esse dado em nenhuma pesquisa. Por isso o texto não o afirma.
A brincadeira no Brasil
A cama de gato aparece em pesquisas brasileiras sobre povos indígenas:
- O povo Katukina, do Acre, chama de Kãchi um jogo de barbante que usa entrelaçamentos parecidos com as camas de gato e forma figuras ligadas à anatomia de animais e plantas. O jogo foi tema de uma exposição com curadoria compartilhada, da qual participaram dois Katukina, no Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR, em Paranaguá, descrita num artigo da Campos: Revista de Antropologia (2015).
- Uma dissertação da UFRJ, de Whan Chang (1998), reúne figuras de barbante do povo Karajá, do Brasil Central, e descreve como cada uma é feita. Lemos apenas o resumo.
O material de Taubaté cita pesquisas (Lima e Barreto, 2005; Ramos e Morais, 2010) segundo as quais a brincadeira estaria presente em aldeias de vários povos, com figuras como vassoura, estrela, rede e casa. Não conseguimos abrir esses estudos, então fica como relato de segunda mão.
Também não encontramos estudo sobre como o nome "cama de gato" chegou ao português nem uma lista confiável de nomes regionais.
Com que idade e como adaptar
Nenhuma fonte que abri fixa uma idade. Como observação do portal, não como dado de pesquisa, vale ir por etapas:
- Crianças pequenas podem começar só vendo um adulto montar e mexendo no fio solto, sem tentar o desenho.
- Crianças em idade escolar costumam conseguir tirar o desenho das mãos de outra pessoa quando o adulto monta o primeiro e entrega pronto.
- Quem já domina isso pode tentar montar o primeiro desenho sozinho, ou os desenhos de uma pessoa só.
Duas precauções, também do portal: nunca passe o laço ao redor do pescoço e tire o fio se algum dedo ficar apertado.
Uma versão com o corpo todo
O material de Jundiaí descreve uma variação em que barbantes, elásticos ou tecidos são presos em paredes e móveis, e a pessoa tenta atravessar sem encostar em nenhum fio. O material a chama de cama de gato corporal. Não achei registro de origem para essa versão.
E os benefícios?
Não achei pesquisa que meça benefícios da cama de gato em crianças, e este texto não vai inventar nenhum. Como observação do portal, a brincadeira pede calma das duas pessoas, porque quem puxa depressa demais desfaz o desenho.
