Menina de óculos com a mão no queixo segurando uma peça sobre um tabuleiro de Resta Um em forma de cruz, com poucas peças restantes
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Resta Um: como jogar, de onde veio e como terminar com uma peça só

O Resta Um é um jogo de tabuleiro que se joga sozinho, contra ninguém. Não tem sorte, não tem adversário e não tem trapaça possível. Tem só a posição das peças e a pergunta de sempre: será que desta vez sobra uma só?

Quase todo mundo já tentou. E quem não conseguiu pode se consolar: o Resta Um não se resolve na tentativa e erro, mas com um jeito de pensar que dá para ensinar.

As regras

O tabuleiro que se encontra à venda no Brasil tem forma de cruz e 33 casas. O jogo começa com 32 peças e só a casa do centro vazia.

  1. Uma peça salta sobre outra que esteja na casa vizinha e cai na casa vazia logo depois.
  2. A peça que foi saltada sai do tabuleiro.
  3. Só vale saltar na horizontal ou na vertical, nunca na diagonal.
  4. Não se pode saltar por cima de uma casa vazia, nem cair numa casa ocupada.
  5. Quando não houver mais nenhum salto possível, o jogo acaba.

O objetivo é terminar com uma peça só. O desafio completo é que essa última peça fique exatamente no centro, onde estava o buraco no começo.

Por que é tão difícil

Menina pensativa diante de um tabuleiro de resta um em cruz com pinos de madeira

Como cada salto tira uma peça e o jogo começa com 32, toda solução tem exatamente 31 saltos. O problema é que, no meio do caminho, é muito fácil deixar uma peça isolada, longe de todas as outras. Uma peça sozinha num canto não tem ninguém para saltar nem ninguém que a salte, e aí o jogo termina com duas, três ou quatro peças.

É um tropeço clássico: o jogador limpa bem o centro no começo e, quando olha para as pontas da cruz, percebe que elas ficaram sem conexão.

A estratégia que funciona: pensar em pacotes

O pesquisador George Bell, que estuda a matemática do jogo, dá um conselho que muda tudo: não tente decorar a solução. Aprenda os pacotes, sequências curtas de saltos que limpam um bloco inteiro de peças sem mexer no resto do tabuleiro.

O pacote mais usado limpa uma fileira de três peças com a ajuda de uma peça vizinha, que funciona como catalisadora: ela salta para fora, participa da limpeza e volta para o lugar de onde saiu. Depois que a criança entende esse movimento, o tabuleiro deixa de ser um amontoado de 32 peças e passa a ser um conjunto de blocos, cada um com a sua solução.

Na prática, três hábitos ajudam muito:

  • Limpe um braço da cruz por vez, em vez de saltar aleatoriamente pelo tabuleiro.
  • Antes de cada salto, pergunte o que fica isolado. Se a jogada deixa uma peça sem vizinhas, procure outra.
  • Guarde o centro para o final. É para lá que a última peça precisa voltar.

A solução mais curta já provada

Se toda solução tem 31 saltos, como pode existir uma “mais curta”? A resposta é que os matemáticos contam como um movimento a sequência de saltos seguidos feita pela mesma peça.

Por essa conta, Ernest Bergholt encontrou em 1912 uma solução em 18 movimentos para o tabuleiro de 33 casas. Em 1964, John Beasley provou que não existe solução mais curta. Mais de cinquenta anos separaram a descoberta da prova.

O tabuleiro de 37 casas e o desafio impossível

Existe um segundo tabuleiro, o francês ou europeu, com 37 casas: a mesma cruz com quatro casas a mais preenchendo os cantos internos. Ele é o mais antigo dos dois.

E ele tem uma armadilha. Começando com o buraco no centro, não existe solução. Não é questão de habilidade: foi provado matematicamente que, dessa posição inicial, é impossível terminar com uma peça só. Já em 1697 uma revista francesa registrava que ninguém tinha conseguido. Se você tem um tabuleiro de 37 casas, comece com o buraco em outra posição.

De onde vem o Resta Um

A primeira descrição impressa do jogo, com tabuleiro, regras e problemas para resolver, está na revista francesa Mercure Galant de agosto de 1697. Na mesma época, o gravurista Claude-Auguste Berey retratou a princesa de Soubise jogando o Jeu du Solitaire num tabuleiro de 37 casas.

O jogo virou moda na corte de Luís XIV. O pesquisador John Beasley, que estuda a história do jogo, compara essa febre à do cubo mágico. Em 1710, o filósofo e matemático Leibniz escreveu sobre o jogo, que descrevia como recém-espalhado.

O tabuleiro de 33 casas, o que usamos no Brasil, aparece bem depois: a primeira descrição conhecida é alemã, de 1779. No século XIX, ele se espalhou pelo mundo.

A lenda da Bastilha

É muito comum ler que o jogo foi inventado por um prisioneiro da Bastilha para passar o tempo. É lenda. Segundo Beasley, a referência mais antiga a essa história é um livro inglês de 1801, publicado um século depois dos fatos e em outro país, sem nenhuma fonte francesa que a sustente. Também não há prova para as outras origens que já foram atribuídas ao jogo, como monges ou indígenas norte-americanos.

Os nomes

O nome brasileiro descreve o objetivo: resta uma peça. Em Portugal, o jogo se chama Solitário, como na França e na Inglaterra. Nos Estados Unidos, é o peg solitaire, e na Índia ficou conhecido como Brainvita.

Com que idade começar

A mecânica cabe na cabeça de uma criança de 6 anos: saltar, tirar a peça, saltar de novo. Terminar com uma peça só é outra história, e é desafio até para adulto. Por isso vale mudar a meta conforme a idade:

  • No começo: terminar com menos de dez peças já é vitória.
  • Depois: bater o próprio recorde da semana anterior.
  • Por fim: uma peça só, em qualquer casa, e só então o centro.

Um bom jeito de jogar junto é um fazer os saltos enquanto o outro só pode perguntar “e essa aqui vai ficar sozinha?”. Para a criança, é um treino de antecipação sem pressão de adversário. Para o adulto, é a chance de finalmente resolver o jogo que ficou pendente desde a infância.

Onde encontrar

O Resta Um da Maninho é o tabuleiro clássico de 33 casas, com 32 pinos, em MDF, indicado pelo fabricante a partir de 6 anos. Está à venda na Casa do Brinquedo. A loja é da mesma empresa que mantém o Amo Brinquedos, e os critérios de indicação estão em Como Avaliamos.

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