Menina de 5 anos agachada atrás de um sofá, espiando de lado, enquanto um adulto de costas conta virado para a parede.
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Esconde-esconde: regras, variações, de onde vem e como brincar com segurança

Esconde-esconde parece não precisar de explicação, e por isso mesmo cada grupo de crianças acaba jogando de um jeito. Num quintal, quem procura conta de olhos fechados e depois sai à caça. Na rua, existe uma “mancha” onde é preciso bater o nome de quem foi achado. Todas as versões têm o mesmo esqueleto: alguém conta, o resto do grupo some, e a graça está no meio-tempo em que ninguém sabe onde ninguém está.

Aqui estão as regras básicas, as variações registradas, o pouco que se sabe da origem, a idade e os combinados de segurança. Onde as fontes calam, a gente diz que não sabe.

Como se joga: a versão básica

Em geral, são três ou mais participantes. As descrições em português concordam no essencial: uma criança é escolhida para contar, fica de olhos fechados enquanto as outras se escondem, avisa que vai procurar e sai atrás de quem sumiu.

  1. Escolher quem conta. Pode ser no “zerinho ou um” ou por sorteio. Combine antes se a próxima contagem fica com a primeira ou com a última pessoa achada.
  2. Marcar o limite. Diga em voz alta onde se pode esconder: a sala e o quarto, o quintal até o muro. O que está fora do limite está fora do jogo.
  3. Contar. Quem conta fica de olhos fechados ou de costas, sem espiar, até um número combinado.
  4. Procurar. Ao fim da contagem, quem procura avisa que vai começar.
  5. Encerrar. A rodada acaba quando não falta ninguém ou quando quem procura desiste e grita que podem sair.

Nomes e regras que variam de turma para turma

No Brasil, a brincadeira aparece como esconde-esconde e como pique-esconde. A Wikipédia em português registra ainda “sisconda” e diz que em Portugal ela se chama “escondidas”. O Mapa do Brincar, projeto da Folha de S.Paulo que reuniu 750 brincadeiras de crianças de todo o país em 2009, traz “manja” em Rio Branco (AC) e, para a versão em que todos entram no mesmo esconderijo, “salmão” em São Paulo e “bater o 31” em Curitiba. São registros pontuais, não prova de que a cidade inteira fale assim.

Uma coletânea de Graziella Alves, publicada em 2002 na revista Zero-a-Seis, da UFSC, sem indicação de cidade, descreve o pique-esconde com uma “mancha”, como um poste ou um pedaço de parede, onde se “bate o nome”. Quem conta fica ali de costas, conta até 31 e avisa “Lá vou eu!”. Ao achar alguém, corre até a mancha e diz “31” mais o nome da pessoa. Se a criança achada chegar antes e disser o próprio nome, está “salva”. A autora diz não saber por que o número é 31.

O mesmo texto traz outras regras de turma. “31 salve todos” é a frase da última pessoa achada que chega à mancha antes de quem procura: quem já foi achado fica salvo, e quem contava conta de novo. “Guardar caixão” é rondar a mancha em vez de procurar, o que tira a criança do jogo. “Gorar o ovo”, ou “queimar a panela”, é gritar o nome errado, e quem procura tem de contar outra vez. São registros de um grupo, não regras oficiais.

Variações para mudar o ritmo

  • Com base (ou pique). Quem está escondido tenta correr até um ponto combinado sem ser pego. Quem chega lá está a salvo.
  • Sardinha. É o jogo ao contrário: só uma criança se esconde, e cada pessoa que a encontra entra no mesmo esconderijo, em silêncio. O lugar fica cada vez mais apertado, e a última a achar o grupo perde.
  • Com prisão. Quem é achado vai para uma área combinada, e quem está livre pode tentar libertar quem foi preso.
  • Por equipes. Dois times de pelo menos quatro crianças, cada um escondido perto da base do outro, tentando chegar à própria base sem ser pego.

De onde vem: o que se sabe e o que não se sabe

Pé de criança de meia cinza aparecendo sob uma cortina, enquanto outra criança segura a ponta do tecido para abri-la.

Ninguém sabe onde o esconde-esconde nasceu. Um registro antigo vem da Grécia: a Enciclopédia Britannica aproxima a brincadeira do apodidraskinda, descrito por Julius Pollux, escritor grego do século II da nossa era. O projeto de pesquisa Locus Ludi conta esse nome entre as variantes de jogos de esconder listadas no Onomasticon, o dicionário de Pollux.

Há também uma imagem. Segundo o Locus Ludi, uma pintura de parede da Casa dos Cervos, em Herculano, cidade destruída pelo Vesúvio no ano 79, mostra figuras aladas brincando de esconder. O próprio projeto lembra que imagens não trazem as regras do jogo.

Sites brasileiros repetem que o jogo nasceu na Holanda em 1830, ou que chegou ao Brasil com os portugueses. Não encontramos documento que sustente nenhuma das duas coisas. Uma reportagem da Agência Brasil lembra que o esconde-esconde também diverte crianças em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Um estudo brasileiro de outro tipo saiu na revista Ágora (UFRJ, 2014). Humberto Moacir de Oliveira e Jacques Fux analisam os jogos de esconder pela psicanálise e notam que, no Brasil, o esconder com bebês costuma vir com “sumiu” e “achou” ou “puti”, daí o nome jogo do puti em algumas regiões.

Com que idade e como adaptar

Não encontramos uma regra oficial de idade. Uma página do programa First 5 California indica a brincadeira para crianças de 3 a 5 anos jogando com um adulto: a criança se esconde, o adulto cobre os olhos e conta até 10, e depois procura narrando em voz alta, sem demorar a achar. As faixas abaixo são sugestões do portal, não de pesquisa.

  • Até uns 3 anos: esconderijos pequenos e à vista, com pé ou toalha aparecendo. O adulto faz de conta que não vê e acha com festa.
  • De 4 a 6 anos: um adulto por perto, contagem curta e poucos cômodos. Para quem ainda não conta bem, cantar uma música serve de relógio.
  • A partir de 7 anos: dá para jogar com mancha, base, sardinha e as regras de turma.

Regras de segurança antes de contar

O esconderijo é o lugar para onde ninguém olha, por isso o combinado vem antes da contagem.

  • Janelas e sacadas: a Criança Segura (Safe Kids Brasil) recomenda grades ou redes de proteção em janelas e sacadas. Sem elas, ficam fora do jogo.
  • Lajes, varandas, terraços, muros e telhados: um guia da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras (Sobep) com a Unifesp pede para não permitir brincar em lajes, muros e telhados. A Criança Segura avisa que as quedas da laje são quase sempre fatais.
  • Geladeira, lavadora, armários e baús: a Criança Segura orienta ensinar as crianças a não brincar dentro ou ao redor de móveis e utensílios domésticos grandes como esses. Quem entra corre o risco de ficar preso e não conseguir respirar normalmente.
  • Banheiro: o guia da Sobep pede para manter a porta fechada e tirar a chave, para a criança não se trancar.
  • Carro e garagem: a Criança Segura manda trancar o carro e o porta-malas, porque a criança pode entrar e ficar presa, e diz que a garagem não é lugar seguro para brincar.
  • Rua: o guia orienta a não deixar a criança brincar onde há muito trânsito de carros. Por sugestão nossa, o limite fica na calçada.
  • Supervisão: o mesmo guia pede que se acompanhe de perto as crianças durante as brincadeiras.

Eletrodoméstico parado merece atenção à parte. A comissão de segurança de produtos dos Estados Unidos (CPSC) relata mortes por sufocação de crianças, a maioria entre 4 e 7 anos, em freezers, secadoras, caixas térmicas e geladeiras antigas de trinco, cuja porta não abria com facilidade por dentro. Com frequência, elas brincavam de esconde-esconde. Para aparelhos guardados ou a descartar, a CPSC diz que o método mais seguro é retirar a porta.

Daí sai a regra que sugerimos para a casa: ninguém se esconde num lugar que não abre por dentro.

Outra sugestão nossa é fechar a rodada com uma frase combinada, como “pode sair!”. Se alguém não aparecer, a brincadeira para e o grupo inteiro procura, chamando pelo nome.

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