Brincadeiras de Roda: 7 cantigas, como brincar e o que se sabe da origem
Uma roda não precisa de brinquedo, de tabuleiro nem de placar. Precisa de gente, de uma melodia que todo mundo mais ou menos conhece e de alguém que dê o primeiro passo. É por isso que a brincadeira de roda atravessa gerações: cabe numa calçada, num pátio de escola, na sala de casa depois do almoço de domingo.
Aqui estão sete cantigas de roda brasileiras com a mecânica de cada uma (quem fica no meio, quem sai, qual é o gesto), o que se sabe (e o que não se sabe) da origem delas e como adaptar por idade.
Como montar a roda
O básico é simples: as crianças se posicionam em círculo, em geral de mãos dadas, e cantam. As letras são de autoria coletiva ou anônima, passadas de geração em geração, e o jeito de brincar muda conforme o município ou a escola. Se a sua versão for diferente, ela não está errada.
- Combine o gesto antes de cantar. Com crianças pequenas, ensaie uma volta só caminhando.
- Deixe a escolha de quem fica no meio circular, para ninguém ficar sempre de fora.
- Cante devagar na primeira rodada. A velocidade vem sozinha.
Sete brincadeiras de roda e como cada uma funciona

1. Ciranda, Cirandinha
A mais conhecida de todas. Todos de mãos dadas, girando ao cantar “Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar”. Ao final, um colega é escolhido para ficar no meio da roda, e a brincadeira continua até que todos estejam no centro.
2. Escravos de Jó
Sentados em roda, os participantes passam uma pedrinha ou uma bola de mão em mão, e os gestos acompanham a letra: em “tira, bota, deixa ficar”, quem está com o objeto o levanta, coloca de volta e o deixa parado; em “zigue-zigue-zá”, leva o objeto para o lado e só então o passa ao colega. Exige coordenar mão e ritmo, então comece devagar. Com crianças que ainda levam objetos à boca, troque a pedrinha por uma bolinha de meia.
3. Batata Quente
Uma criança fica fora da roda, de costas, e comanda. As outras passam um objeto (bola, bolinha de pano) de mão em mão enquanto cantam “batata quente, quente, quente”. Quando a de fora grita “queimou!”, quem estiver com o objeto troca de lugar com ela. Em outras versões, quem ficou com o objeto sai do jogo; em grupo pequeno, a troca de lugar evita esperar de fora.
4. Corre Cutia
Roda sentada no chão, com um lenço. Uma criança anda por fora enquanto todos cantam “Corre cutia, na casa da tia”. Ao fim da cantiga, os da roda fecham os olhos e ela deixa o lenço atrás de um colega. Quem percebe o lenço levanta e corre atrás de quem o deixou, que tenta ocupar o lugar vazio sem ser pego. Se sentar a tempo, quem achou o lenço passa a andar por fora; se for pego, continua na mesma função.
5. Pai Francisco
As crianças ficam de mãos dadas em roda e uma delas fica do lado de fora, cantando. Ao fim da primeira estrofe, quem está fora dança e escolhe um colega para sair da roda e cantar; quando a cantiga termina, o novo “Pai Francisco” começa tudo de novo.
6. Terezinha de Jesus
Uma criança fica no centro, as outras formam a roda. A cantiga conta uma queda, três cavalheiros que acodem (“Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão”) e um noivo. Ao final, quem está no centro escolhe outro participante, e o ciclo recomeça.
7. Atirei o Pau no Gato
A letra muda bastante de um lugar para outro. O jornal português Observador registrou em 2015 que, em Portugal (onde se canta “Atirei o pau ao gato”), há quem cante hoje “atirei o peixe ao gato”, e que no Brasil circula uma versão bem distante da original, em que o gato é poupado. Naquele ano, um vereador de Sertãozinho (SP) protocolou um projeto para proibir a cantiga nas escolas da cidade, e o presidente da Câmara se opôs, alegando liberdade de expressão. Ela não tem um gesto próprio registrado: uma forma comum é cantá-la em roda, girando de mãos dadas, como a Ciranda. Há escolas que ensinam a versão “Não atire o pau no gato”. Cante a que preferir e converse com a criança sobre o que a letra diz.
De onde vêm as cantigas de roda
Os folcloristas que coletaram essas cantigas no Brasil, como Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Sílvio Romero, destacam a forte presença portuguesa. Um artigo acadêmico de 2017 compara registros brasileiros com cancioneiros populares de Portugal e encontra ecos diretos: a ciranda aparece já em 1883 nos Cantos Populares do Brasil, de Sílvio Romero, com um refrão parecido com o recolhido na região da Beira, em Portugal, e a história de Terezinha de Jesus tem uma versão portuguesa no Cancioneiro Popular de Baião, registrado por Carlos Nogueira.
Isso não quer dizer que tudo veio de Portugal. Estudos descrevem as cantigas de roda brasileiras como mistura de influências europeias (sobretudo portuguesas), africanas e indígenas, estas associadas à Amazônia. Um artigo sobre brinquedos cantados diz que os ritmos e danças africanos deram um “tempero mais brejeiro” ao legado lúdico brasileiro. São descrições gerais: não há registro que diga de qual matriz veio cada cantiga.
É o caso de Escravos de Jó. A leitura mais difundida liga a cantiga ao personagem bíblico, mas um artigo de 2025 na revista Cerrados, da UnB, lembra que a hipótese é estranha (como uma cantiga da Terra de Uz teria vindo parar só no Brasil?) e apresenta a proposta da etnolinguista Yeda Pessoa de Castro: “Jó” seria corruptela de “nzo”, palavra de línguas bantas que significa casa, e os “escravos de Jó” seriam os escravizados domésticos. É uma hipótese linguística, não um documento. Não se sabe quem compôs a cantiga nem quando, e a ideia, repetida em alguns sites, de que ela era código de fuga não tem registro que a sustente.
Com Atirei o Pau no Gato acontece algo parecido: a cantiga é tradicional, sem autor conhecido, e não há registro de onde nasceu.
Ciranda de adultos: Lia de Itamaracá
A palavra “ciranda” também nomeia uma dança de adultos de Pernambuco. Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore Brasileiro, definia a ciranda, na edição de 1972, como dança infantil de roda vinda de Portugal; na edição de 2001, a entrada passou a mencionar também a ciranda de adultos em Pernambuco. O estudioso Jaime Diniz defendia, em 1960, que ela chegou ao Brasil no século XVIII. Na versão infantil, a dança de pares deu lugar à roda de mãos dadas, e o verso que mandava trocar de par (“cavalheiro, troque o par”) sumiu de vários registros.
Em 31 de agosto de 2021, o Conselho Consultivo do Iphan aprovou o registro da Ciranda do Nordeste como patrimônio cultural imaterial do Brasil. A ciranda reúne música e canto, com instrumentos de percussão, e uma dança de roda em que os participantes dão as mãos, presente em Pernambuco e na Paraíba. Lia de Itamaracá, Patrimônio Vivo de Pernambuco, é chamada de embaixadora da ciranda.
Como adaptar por idade
- Crianças pequenas (2 a 4 anos): Ciranda, Cirandinha e Terezinha de Jesus, que só pedem andar em círculo. Roda pequena, adulto dentro dela.
- Pré-escola (4 a 6 anos): Batata Quente e Pai Francisco, com troca de lugar em vez de eliminação.
- 6 anos em diante: Corre Cutia e Escravos de Jó, que pedem atenção, velocidade e coordenação.
- Roda com avós e tios: peça a versão que eles conhecem. É assim que as variações se espalham.
Essas faixas são sugestão do Amo Brinquedos, não regra: cada grupo tem seu ritmo.
Dia do Folclore: por que 22 de agosto
O Decreto nº 56.747, de 17 de agosto de 1965, instituiu o Dia do Folclore em 22 de agosto, data que lembra o lançamento do termo “folk-lore” em 1846. O decreto manda incentivar celebrações em escolas primárias, médias e superiores. É um bom motivo para armar uma roda na escola ou na família.
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