Menino de 8 anos sentado à escrivaninha do quarto, segurando no ar um dos discos de madeira de uma Torre de Hanói enquanto pensa em qual pino colocá-lo.
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Torre de Hanói: como resolver, quantos movimentos e a história do jogo

A Torre de Hanói parece fácil na primeira olhada: uma base com três pinos, alguns discos empilhados do maior para o menor e a tarefa de levar a pilha inteira para outro pino. Dez minutos depois, a criança (e muito adulto) está com um disco na mão, olhando para a mesa, sem saber para onde ele vai. Isso é normal. O jogo obriga a pensar alguns passos à frente.

Existe um jeito de resolver que cabe em duas frases. Ele vem logo depois das regras, junto com a conta do número mínimo de movimentos, a história real por trás da lenda do templo e ideias para adaptar o jogo a cada idade.

As regras da Torre de Hanói

O jogo tem uma base com três pinos e discos de tamanhos diferentes, todos furados no meio. Os discos começam empilhados em um pino, o maior embaixo e o menor em cima, como uma torre. O objetivo é refazer a torre inteira em outro pino. Há duas regras:

  1. Só se move um disco por vez, sempre o que está no topo de algum pino.
  2. Nunca se coloca um disco maior sobre um menor.

Só isso. Qualquer pino pode servir de apoio no meio do caminho. É essa liberdade que torna o começo difícil: muitas jogadas são permitidas, mas poucas ajudam.

Quantos movimentos são necessários

Para cada quantidade de discos existe um número mínimo de movimentos, dado por uma fórmula: 2 elevado a n, menos 1, em que n é o número de discos. Na prática:

  • 3 discos: 7 movimentos
  • 4 discos: 15 movimentos
  • 5 discos: 31 movimentos
  • 6 discos: 63 movimentos

Cada disco a mais dobra o trabalho e ainda soma uma jogada. O motivo é simples: para mover n discos, é preciso mover n menos 1 para o pino de apoio, mover o maior e mover de novo os n menos 1. O dobro da torre menor, mais uma jogada. A fórmula do mínimo está na Wikipédia (em inglês).

Como resolver: o jeito que a criança aprende

O padrão do menor disco

O método mais fácil de ensinar alterna dois tipos de jogada:

  1. Mova o menor disco para o pino seguinte, sempre girando no mesmo sentido pelos três pinos.
  2. Faça então a única jogada possível com os outros discos. Como nenhum disco pode ficar sobre o menor, sobra só um movimento permitido.
  3. Repita: menor disco, jogada única, menor disco, jogada única, até a torre aparecer pronta no outro pino.

Falta saber para qual lado girar. Chame de A o pino onde a torre começa, de B o do meio e de C o destino. Com um número ímpar de discos (3 ou 5), o menor disco vai de A para C, depois para B, depois para A, e assim por diante. Com um número par (4 ou 6), a ordem é A, B, C, A. A regra está descrita na Wikipédia: seguida assim, a torre fica pronta no número mínimo de movimentos.

Close lateral de uma Torre de Hanói de madeira no meio da solução, com discos coloridos distribuídos nos três pinos, nenhum disco maior sobre um menor.

A ideia recursiva, em português simples

Quem prefere entender a lógica em vez de seguir um ritmo pode pensar assim: para levar a torre de A para C, primeiro leve todos os discos menos o maior para B. O maior fica livre e vai direto para C. Por fim, leve a torre menor de B para C, por cima dele. O truque é que levar “a torre menor” é o mesmo problema com um disco a menos. Com um disco, é uma jogada só. Quem enxerga isso resolve torre de qualquer tamanho.

Com que idade começar e como adaptar

Não há uma idade oficial para o jogo. Um estudo de 2016 na revista Frontiers in Psychology (Wunsch e colegas) usou a torre com até cinco discos em participantes de 3 a 10 anos e adultos, com uma versão para 3 e 4 anos, outra para 5 e 6 e outra para 7 anos em diante. A rodada de treino tinha três discos e explicava as regras. A porcentagem de problemas resolvidos tendeu a subir com a idade: cerca de 13% aos 3 anos e 57% aos 10. Ou seja, criança pequena consegue jogar, mas resolve menos problemas.

Uma sugestão prática, que é opinião nossa e não resultado de estudo: comece com 3 discos, que pedem 7 jogadas, até a criança chegar lá sem erro. Só então acrescente o quarto. Crianças maiores podem tentar descobrir sozinhas a regra do menor disco, o que costuma ser mais gostoso do que receber a resposta pronta.

A história: um jogo de 1883 e a lenda que vinha na caixa

O jogo foi criado pelo matemático francês Édouard Lucas e apresentado em 1883, mas sem o nome dele. A folha de instruções original, publicada em inglês numa página mantida por Paul Stockmeyer no site da Universidade William & Mary, atribui o jogo ao “Professor N. Claus (de Siam)”, mandarim de um “Colégio de Li-Sou-Stian”, que o teria trazido de Tonkin (o norte do atual Vietnã). O nome era uma brincadeira: “N. Claus de Siam” é um anagrama de “Lucas d’Amiens”, e Lucas lecionava no Lycée Saint-Louis (MacTutor, Universidade de St Andrews).

A mesma folha conta a lenda que todo mundo repete, apresentada como “uma velha lenda indiana”: brâmanes em um templo de Benares movendo uma torre de 64 discos de ouro, e, quando terminassem, a torre e os brâmanes desabariam e o mundo acabaria. Não se conhece registro dessa lenda antes de 1883. Ela aparece pela primeira vez na própria folha que apresentava o jogo ao público, que segundo o texto era vendido em livrarias e lojas de novidades de Paris, Pequim, Tóquio e Saigon (tradução publicada por Stockmeyer). A folha ainda oferecia prêmios a quem movesse à mão a torre de 64 andares. A página da Wikipédia sobre o livro The Tower of Hanoi: Myths and Maths (em inglês) descreve a história do templo como um enredo mítico que o próprio Lucas inventou para o jogo.

E se alguém tentasse? A conta é 2 elevado a 64, menos 1, ou 18.446.744.073.709.551.615 movimentos. Com uma jogada por segundo, sem descanso e sem erro, dá cerca de 585 bilhões de anos, mais de 40 vezes a idade estimada do universo, segundo a Wikipédia. A própria folha de 1883 falava em “mais de cinco bilhões de séculos”.

Uso na psicologia e na escola

A Torre de Hanói é usada em pesquisas sobre resolução de problemas, e uma variante, a Torre de Londres, é empregada na avaliação neuropsicológica de funções executivas (Wikipédia). No Brasil, um estudo publicado na revista Paidéia em 2015 (Ferreira, Zanini e Seabra) aplicou o jogo com 3 e 4 discos a 55 crianças e adolescentes de 10 a 16 anos. O resultado pede cautela: nesse grupo, o número de movimentos e o tempo não diferenciaram as faixas de idade, e os autores lembram que os estudos divergem sobre o que o teste mede, entre planejamento, memória de trabalho e controle inibitório (a capacidade de segurar o impulso).

Ou seja, a torre não é prova de inteligência nem garantia de bom desempenho na escola. Em casa ou em sala de aula, vale como um jogo que pede planejar antes de agir e continuar depois de errar.

Onde encontrar

A Torre de Hanoi em Madeira Educativo Pedagógico, da Fábrika dos Sonhos, é de madeira e vem com uma base com 3 pinos e 6 discos (pela fórmula acima, a torre completa pede no mínimo 63 movimentos). A página da loja não informa idade indicada. Está à venda na Casa do Brinquedo. A loja é da mesma empresa que mantém o Amo Brinquedos, e os critérios de indicação estão em Como Avaliamos.

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