Queimada: regras, nomes regionais e como jogar sem ninguém ficar de fora
A queimada cabe em qualquer pátio, rua ou campinho: uma bola, duas equipes e uma linha riscada no chão. Quem é atingido pela bola, e a bola cai no chão, está queimado. Parece simples, e mesmo assim as regras mudam de um lugar para outro.
Não existe uma queimada única. Dois regulamentos de competição lidos para este texto concordam no essencial e discordam em pontos grandes, do tamanho da equipe ao destino de quem é queimado. Para brincar em casa ou na rua, o melhor é combinar as regras antes de começar.
A base: o que as regras têm em comum
Duas equipes, cada uma na sua metade da quadra, tentam acertar a bola nos adversários. Nos dois regulamentos que li (os dos Jogos Intercolegiais de Juiz de Fora, MG, de 2018, e os do XXV SEMPA 2026, publicados no site da Prefeitura de Registro, SP), a regra central é a mesma: é queimado quem for atingido em qualquer parte do corpo pela bola, e a bola cai no chão em seguida. Em casa, vale o que dizemos sobre a cabeça na parte de segurança. Também coincidem nestes pontos:
- se a bola toca em alguém e, antes de tocar o chão, uma pessoa da mesma equipe a segura, ninguém é queimado;
- quem segura a bola e cai com ela dominada não é queimado, mesmo que a bola toque o chão;
- se a bola toca o chão e a pessoa ao mesmo tempo, não queima;
- jogo passivo, ou seja, bola lançada sem intenção de queimar, é aceito até o terceiro lançamento seguido, e depois disso a equipe perde a posse;
- quem fica com a bola tem no máximo cinco segundos para lançar.
Há uma regra que aparece num plano de aula e não nos dois regulamentos. Segundo o plano publicado pelo Instituto Claro, se a bola bate em alguém e a própria pessoa ou um colega a segura antes do chão, a pessoa está salva e quem lançou a bola é que fica queimado. Vale combinar isso antes, porque muda o ritmo do jogo.
Quadra e bola
Os dois regulamentos usam um retângulo de 18 metros por 9, com as linhas fazendo parte da quadra. O de Juiz de Fora diz que é a quadra de vôlei, e o de Registro divide o retângulo em dois campos de 9 por 9 metros. A bola muda: de vôlei em Juiz de Fora, de borracha número 8 em Registro.
Em casa, nada disso é obrigatório. Num estudo de campo com crianças de um acampamento do MST no Distrito Federal, publicado em 2021, o campo foi marcado com um chinelo no meio e dez passos grandes para cada lado, e a área de quem é queimado foi marcada do mesmo jeito. Os planos de aula que consultamos falam em bola de borracha média ou em bola de meia. Nossa sugestão é escolher a mais leve e macia que houver.
Duas queimadas, duas regras de saída

A maior diferença entre os dois regulamentos está no que acontece depois de queimar:
- Juiz de Fora (2018): nove titulares por equipe, dois tempos de 12 minutos. Quem é queimado vai para o fundo da quadra adversária e de lá lança a bola; só volta ao jogo se queimar alguém. Vence quem terminar com mais adversárias queimadas.
- Registro (2026): até dez atletas por equipe, um tempo único de 10 minutos. Quem é queimado vai para a zona de queimado e fica lá até o fim do jogo. Vence quem terminar com mais gente sem ser queimada.
Nomes regionais
Dois nomes têm registro firme. Na Bahia, o jogo é o baleado: o plano de trabalho da Federação de Baleado da Bahia, publicado pelo governo do estado, o descreve como "também conhecido como queimada ou jogo da mata". Essa federação foi criada em 2018, e há outras na Paraíba e em Pernambuco, onde a entidade leva o nome de queimado. Em Fortaleza, o nome é carimba: uma reportagem de 2024 do Diário do Nordeste trata carimba, queimada, baleado, caçador e mata-soldado como o mesmo jogo.
Para os demais, a divisão por estado vem só da Wikipédia em português, sem referência: bola queimada (Paraná), caçador (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), carimbada (Goiás), cemitério (Ceará), mata-mata e mata-soldado (Santa Catarina) e matada (Paraíba). Se na sua região a brincadeira tem outro nome, ele pode não estar aqui.
Variações para brincar
O plano do Instituto Claro, pensado para o Ensino Fundamental I, descreve três variações além da clássica:
- Queimada ameba: sem equipes e sem divisão da quadra, cada um por si, por 10 minutos. Quem é queimado se ajoelha ou senta onde está e vira "ameba". Volta ao jogo se encostar em quem ainda está de pé, trocando de lugar com essa pessoa, ou se segurar a bola que passar ao alcance.
- Queimada real: cada equipe escolhe em segredo personagens com funções (Rei, Bobo da corte, Traidor, Mago e Rainha). O Mago pode mandar outra pessoa em seu lugar uma vez e só vai para o cemitério, a área dos queimados, na segunda queimada. Queimar a Rainha encerra o jogo.
- Garrafobol: a bola não queima pessoas. Cada participante protege com o corpo uma garrafa PET com um pouco de água no fundo, para o vento não derrubar, e está queimado quem tiver a garrafa derrubada. Vence a equipe que derrubar todas as garrafas da outra.
Não encontramos quem criou essas versões nem quando surgiram.
Jogar sem eliminar ninguém
Em 2013, numa entrevista à rádio pública americana NPR, Cheryl Richardson, uma diretora da associação americana de educação física AAHPERD, disse que o dodgeball (jogo parecido com a queimada, praticado nos Estados Unidos) e o pega-pega são jogos de eliminação em que quem tem menos habilidade sai primeiro, o que atrapalha o objetivo de aprender e praticar num ambiente de apoio. É a opinião de uma especialista, não uma regra.
Há formas de manter todo mundo no jogo, como a ameba. Na "queimada maluca", plano publicado no site Educação Física Escolar, cada criança escreve o nome no chão com giz e anota três marcas: Q (queimei), M (morri) e S (salvei). Quem é queimado senta, e quem está com a bola o salva passando a bola para essa pessoa, que se levanta e volta a jogar.
Outra ideia, esta uma sugestão nossa: dar a quem foi queimado uma tarefa, como contar os acertos da equipe, e um tempo curto de espera antes de voltar.
A partir de que idade
Não encontramos fonte que defina uma idade mínima para a queimada. O plano do Instituto Claro é voltado ao Ensino Fundamental I, sem indicar faixa etária. No relato do acampamento no Distrito Federal, duas crianças de 5 anos entraram como "café-com-leite", expressão para quem joga com regras mais leves: podiam queimar e ser queimadas, com a combinação de que ninguém jogaria a bola forte nelas.
Segurança
- Força. No mesmo relato, uma criança sugeriu não chamar dois irmãos para jogar porque eles "jogam a bola muito forte". Para o autor do estudo, o critério não era conhecer as regras, e sim não machucar. Combine desde o início que ganhar importa menos do que todo mundo sair bem.
- Cabeça. O plano do Instituto Claro trata a cabeça como "fria": bola que pega direto na cabeça não queima. Os dois regulamentos falam em "qualquer parte do corpo" e não abrem exceção para a cabeça. Em casa, nossa sugestão é seguir o plano e combinar que ninguém mira na cabeça.
- Chão e objetos. Nossa sugestão é escolher um espaço limpo, sem degraus. O regulamento de Registro proíbe brincos, pulseiras, cordões, colares e anéis durante o jogo, e o de Juiz de Fora diz que quem cai por acidente não pode ser queimado.
- Fugir da quadra. Os dois regulamentos punem quem sai da quadra para escapar da bola. Em casa, combine uma regra parecida.
De onde vem
Não encontramos fonte com documento sobre a origem da queimada no Brasil. O plano da federação baiana fala em raízes "possivelmente" europeias e medievais e em chegada com os colonizadores portugueses, sem citar registro. Já a história do rei Papus, que treinaria soldados com bolas de fogo, aparece na reportagem do Diário do Nordeste como lenda. O que há documentado é o jogo vivo, nos regulamentos, nos planos de aula e no relato de campo de 2021.
