Esconde-esconde: regras, variações, de onde vem e como brincar com segurança
Esconde-esconde parece não precisar de explicação, e por isso mesmo cada grupo de crianças acaba jogando de um jeito. Num quintal, quem procura conta de olhos fechados e depois sai à caça. Na rua, existe uma “mancha” onde é preciso bater o nome de quem foi achado. Todas as versões têm o mesmo esqueleto: alguém conta, o resto do grupo some, e a graça está no meio-tempo em que ninguém sabe onde ninguém está.
Aqui estão as regras básicas, as variações registradas, o pouco que se sabe da origem, a idade e os combinados de segurança. Onde as fontes calam, a gente diz que não sabe.
Como se joga: a versão básica
Em geral, são três ou mais participantes. As descrições em português concordam no essencial: uma criança é escolhida para contar, fica de olhos fechados enquanto as outras se escondem, avisa que vai procurar e sai atrás de quem sumiu.
- Escolher quem conta. Pode ser no “zerinho ou um” ou por sorteio. Combine antes se a próxima contagem fica com a primeira ou com a última pessoa achada.
- Marcar o limite. Diga em voz alta onde se pode esconder: a sala e o quarto, o quintal até o muro. O que está fora do limite está fora do jogo.
- Contar. Quem conta fica de olhos fechados ou de costas, sem espiar, até um número combinado.
- Procurar. Ao fim da contagem, quem procura avisa que vai começar.
- Encerrar. A rodada acaba quando não falta ninguém ou quando quem procura desiste e grita que podem sair.
Nomes e regras que variam de turma para turma
No Brasil, a brincadeira aparece como esconde-esconde e como pique-esconde. A Wikipédia em português registra ainda “sisconda” e diz que em Portugal ela se chama “escondidas”. O Mapa do Brincar, projeto da Folha de S.Paulo que reuniu 750 brincadeiras de crianças de todo o país em 2009, traz “manja” em Rio Branco (AC) e, para a versão em que todos entram no mesmo esconderijo, “salmão” em São Paulo e “bater o 31” em Curitiba. São registros pontuais, não prova de que a cidade inteira fale assim.
Uma coletânea de Graziella Alves, publicada em 2002 na revista Zero-a-Seis, da UFSC, sem indicação de cidade, descreve o pique-esconde com uma “mancha”, como um poste ou um pedaço de parede, onde se “bate o nome”. Quem conta fica ali de costas, conta até 31 e avisa “Lá vou eu!”. Ao achar alguém, corre até a mancha e diz “31” mais o nome da pessoa. Se a criança achada chegar antes e disser o próprio nome, está “salva”. A autora diz não saber por que o número é 31.
O mesmo texto traz outras regras de turma. “31 salve todos” é a frase da última pessoa achada que chega à mancha antes de quem procura: quem já foi achado fica salvo, e quem contava conta de novo. “Guardar caixão” é rondar a mancha em vez de procurar, o que tira a criança do jogo. “Gorar o ovo”, ou “queimar a panela”, é gritar o nome errado, e quem procura tem de contar outra vez. São registros de um grupo, não regras oficiais.
Variações para mudar o ritmo
- Com base (ou pique). Quem está escondido tenta correr até um ponto combinado sem ser pego. Quem chega lá está a salvo.
- Sardinha. É o jogo ao contrário: só uma criança se esconde, e cada pessoa que a encontra entra no mesmo esconderijo, em silêncio. O lugar fica cada vez mais apertado, e a última a achar o grupo perde.
- Com prisão. Quem é achado vai para uma área combinada, e quem está livre pode tentar libertar quem foi preso.
- Por equipes. Dois times de pelo menos quatro crianças, cada um escondido perto da base do outro, tentando chegar à própria base sem ser pego.
De onde vem: o que se sabe e o que não se sabe

Ninguém sabe onde o esconde-esconde nasceu. Um registro antigo vem da Grécia: a Enciclopédia Britannica aproxima a brincadeira do apodidraskinda, descrito por Julius Pollux, escritor grego do século II da nossa era. O projeto de pesquisa Locus Ludi conta esse nome entre as variantes de jogos de esconder listadas no Onomasticon, o dicionário de Pollux.
Há também uma imagem. Segundo o Locus Ludi, uma pintura de parede da Casa dos Cervos, em Herculano, cidade destruída pelo Vesúvio no ano 79, mostra figuras aladas brincando de esconder. O próprio projeto lembra que imagens não trazem as regras do jogo.
Sites brasileiros repetem que o jogo nasceu na Holanda em 1830, ou que chegou ao Brasil com os portugueses. Não encontramos documento que sustente nenhuma das duas coisas. Uma reportagem da Agência Brasil lembra que o esconde-esconde também diverte crianças em Angola, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
Um estudo brasileiro de outro tipo saiu na revista Ágora (UFRJ, 2014). Humberto Moacir de Oliveira e Jacques Fux analisam os jogos de esconder pela psicanálise e notam que, no Brasil, o esconder com bebês costuma vir com “sumiu” e “achou” ou “puti”, daí o nome jogo do puti em algumas regiões.
Com que idade e como adaptar
Não encontramos uma regra oficial de idade. Uma página do programa First 5 California indica a brincadeira para crianças de 3 a 5 anos jogando com um adulto: a criança se esconde, o adulto cobre os olhos e conta até 10, e depois procura narrando em voz alta, sem demorar a achar. As faixas abaixo são sugestões do portal, não de pesquisa.
- Até uns 3 anos: esconderijos pequenos e à vista, com pé ou toalha aparecendo. O adulto faz de conta que não vê e acha com festa.
- De 4 a 6 anos: um adulto por perto, contagem curta e poucos cômodos. Para quem ainda não conta bem, cantar uma música serve de relógio.
- A partir de 7 anos: dá para jogar com mancha, base, sardinha e as regras de turma.
Regras de segurança antes de contar
O esconderijo é o lugar para onde ninguém olha, por isso o combinado vem antes da contagem.
- Janelas e sacadas: a Criança Segura (Safe Kids Brasil) recomenda grades ou redes de proteção em janelas e sacadas. Sem elas, ficam fora do jogo.
- Lajes, varandas, terraços, muros e telhados: um guia da Sociedade Brasileira de Enfermeiros Pediatras (Sobep) com a Unifesp pede para não permitir brincar em lajes, muros e telhados. A Criança Segura avisa que as quedas da laje são quase sempre fatais.
- Geladeira, lavadora, armários e baús: a Criança Segura orienta ensinar as crianças a não brincar dentro ou ao redor de móveis e utensílios domésticos grandes como esses. Quem entra corre o risco de ficar preso e não conseguir respirar normalmente.
- Banheiro: o guia da Sobep pede para manter a porta fechada e tirar a chave, para a criança não se trancar.
- Carro e garagem: a Criança Segura manda trancar o carro e o porta-malas, porque a criança pode entrar e ficar presa, e diz que a garagem não é lugar seguro para brincar.
- Rua: o guia orienta a não deixar a criança brincar onde há muito trânsito de carros. Por sugestão nossa, o limite fica na calçada.
- Supervisão: o mesmo guia pede que se acompanhe de perto as crianças durante as brincadeiras.
Eletrodoméstico parado merece atenção à parte. A comissão de segurança de produtos dos Estados Unidos (CPSC) relata mortes por sufocação de crianças, a maioria entre 4 e 7 anos, em freezers, secadoras, caixas térmicas e geladeiras antigas de trinco, cuja porta não abria com facilidade por dentro. Com frequência, elas brincavam de esconde-esconde. Para aparelhos guardados ou a descartar, a CPSC diz que o método mais seguro é retirar a porta.
Daí sai a regra que sugerimos para a casa: ninguém se esconde num lugar que não abre por dentro.
Outra sugestão nossa é fechar a rodada com uma frase combinada, como “pode sair!”. Se alguém não aparecer, a brincadeira para e o grupo inteiro procura, chamando pelo nome.
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