Como Empinar Pipa com Segurança (e por que cerol e linha chilena são proibidos)
A pipa é um dos brinquedos mais antigos ainda em uso diário no Brasil. Ela nasceu na China antiga, por volta de 1200 a.C., feita de seda e bambu, materiais leves o bastante para voar e resistentes o bastante para aguentar vento.
Os primeiros relatos escritos de pipas empinadas são de cerca de 200 a.C., e não falam de criança nenhuma: falam de guerra. Havia pipas gigantes capazes de levar um homem ao ar para observar a posição do inimigo, e os movimentos e as cores serviam de código entre destacamentos militares à distância. Em vários países do Oriente, elas também ganharam sentido religioso, ligadas a sorte, nascimento e vitória.
Ao Brasil, estima-se que tenham chegado com os portugueses, no período da colonização.
Pipa, papagaio, arraia ou pandorga
O nome muda conforme a região, e às vezes muda também o formato:
- Pipa, no Rio de Janeiro e em boa parte do país
- Papagaio, muito usado em São Paulo
- Arraia, na Bahia
- Pandorga, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul
- Quadrado, tapioca e balde, em partes do Nordeste
A parte que não é negociável: cerol e linha chilena
Antes de qualquer dica de como empinar, é preciso falar do que transformou uma brincadeira de criança num problema de saúde pública.
O cerol é uma mistura caseira de cola com pó de vidro ou de metal, passada na linha para deixá-la cortante e permitir cortar a linha do adversário. A linha chilena é a versão industrial do mesmo princípio, feita com pó de quartzo e óxido de alumínio, e é bem mais agressiva que o cerol artesanal.
O alvo dessa linha nunca é só a outra pipa. Esticada entre postes, atravessada numa rua ou enroscada numa árvore, ela atinge quem passa. As vítimas mais frequentes são motociclistas e ciclistas, com cortes profundos em pescoço, rosto e pernas. A Associação Brasileira de Motociclistas estima que um quarto dos acidentes envolvendo linha chilena seja fatal.
O que diz a lei. Vários estados já proíbem por lei estadual fabricar, vender, transportar, guardar e usar cerol e linha chilena, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Paraná. Em São Paulo, a Lei 17.201/2019 prevê multa de 50 Ufesps para quem usa, cerca de R$ 1,8 mil em valores de 2025, e de 5 mil Ufesps para o comércio que vende, mais de R$ 185 mil. No Rio de Janeiro, a multa pode chegar a R$ 17 mil. Muitos municípios têm leis próprias, algumas responsabilizando diretamente os pais ou responsáveis pelo menor. No plano federal, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que proíbe e criminaliza o uso, prevendo detenção de um a três anos além de multa, e o texto seguiu para análise do Senado.
Na prática, para quem é pai ou mãe, a regra é simples: linha cortante está fora. Não existe versão segura, não existe uso controlado e não existe lugar apropriado. Pipa se empina com linha comum.
Onde empinar
A escolha do lugar resolve a maior parte dos riscos antes de a pipa sair do chão.
- Longe da rede elétrica. Este é o ponto crítico. Linha molhada, suja ou com cerol conduz eletricidade. Segundo a Abradee, a associação das distribuidoras de energia, 77 pessoas morreram no país entre 2009 e 2018 em acidentes envolvendo pipa e rede elétrica, e casos de criança que sobe no poste para resgatar a pipa continuam aparecendo no noticiário. Se a pipa enroscar num poste ou num fio, ela está perdida: solte a linha e vá embora, nunca puxe, nunca suba e nunca tente tirar com pau ou escada. Se a linha ficou pendurada na rede, avise a distribuidora de energia.
- Longe de vias com trânsito. Campo aberto, várzea, parque ou praia. Nunca rua, nunca calçada de avenida.
- Longe de aeroportos e heliportos. Pipa na rota de pouso e decolagem é risco real para aviões.
- Sem árvores e muros no caminho do vento. Além do risco de enroscar, obstáculo à frente cria turbulência e derruba a pipa.
Como levantar a primeira pipa

Existe um mito de que empinar pipa exige correr muito. Com vento adequado, não exige quase nada.
- Leia o vento. Fique de costas para ele. O vento bom para começar é aquele que balança as folhas das árvores de forma constante, não o de rajada. Vento de rajada é o que mais frustra iniciante.
- Confira a rabiola. Ela não é enfeite, é o que estabiliza a pipa. Pipa que roda feito pião no ar quase sempre está com a rabiola curta ou leve demais.
- Peça ajuda para o lançamento. Alguém segura a pipa a uns 15 metros, com ela levemente inclinada para trás, e solta sem empurrar.
- Puxe, não corra. Dê puxões curtos e firmes na linha para a pipa ganhar altura, soltando linha entre um puxão e outro.
- Estabilize. Quando ela subir acima da altura dos obstáculos, o vento fica mais constante e o trabalho diminui bastante.
Se a pipa mergulhar, solte linha em vez de puxar. O instinto de puxar é justamente o que faz a pipa acelerar contra o chão.
Cuidado com as próprias mãos
Mesmo sem cerol, linha comum sob tensão corta. É um acidente frequente e pouco falado: a criança tenta frear a linha que está correndo com a mão nua e leva um corte fundo nos dedos.
Ensine desde o início a usar a carretilha para controlar a linha e nunca enrolar a linha no dedo, no pulso ou no pescoço. Numa pipa grande, com vento forte, uma luva simples resolve.
O que empinar pipa desenvolve
Leitura de um sistema invisível
A criança não vê o vento. Ela deduz o vento pelo comportamento da pipa, pelo movimento das folhas, pela sensação na pele. É um dos raros brinquedos que exige interpretar uma força que não se enxerga, corrigindo a ação a partir de sinais indiretos.
Paciência com retorno demorado
Entre o preparo, a espera do vento e as primeiras tentativas fracassadas, pode levar uma hora até a pipa subir. É o oposto da gratificação imediata, e é exatamente por isso que vale.
Construir o próprio brinquedo
Pipa é um dos poucos brinquedos que a criança ainda faz com as próprias mãos, com papel de seda, varetas de bambu, linha e cola. A relação com um objeto que ela montou é diferente da relação com um objeto comprado pronto, e a pipa ensina isso com um material que custa muito pouco.
Vale a pena manter viva
A pipa carrega uma má reputação que não é dela, é do cerol. Separadas as duas coisas, sobra um brinquedo de três mil anos que tira a criança de casa, não consome energia, custa quase nada e ensina a lidar com uma força da natureza.
A conversa sobre linha cortante, aliás, é parte da brincadeira e não um apêndice dela. Uma criança que entende por que o cerol é proibido aprende algo que vale além da pipa: que a diversão de alguém não pode custar a segurança de um estranho que está passando de moto.

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